2 de nov. de 2009

Irreplaceble

Hoje é dia de finados. E isso não é necessariamente legal. Só a parte de não ir pra escola, e tal. Mas para quem tem pessoas queridas que morreram, pode ser um dia de reflexão, de lembranças, às vezes até de tristeza. Esse é o meu caso, e por isso, fui com a minha mãe no mercado comprar florzinhas e visitar três mulheres incríveis que foram e sempre serão exemplos para mim.
A primeira visita foi à minha querida e linda vovó Elízia. Pouco antes de falecer, ela pediu que fosse cremada. E assim fizemos. Só que achamos mórbido demais guardar as cinzas em casa - sem contar que daria um trabalho danado pra decidir qual filho ficaria com elas. Sim, minha família tem essas coisas -, e por isso há pouco mais de um ano atrás, fomos até um local que ela frequentava e enterramos suas cinzas junto a uma amoreira. Ela amava amoreiras. E nem venha, a ideia não foi minha. Hoje voltamos lá e junto com meu irmão e minha tia, rezamos por ela.
Uma das grandes lições que vovó Elízia me ensinou é a importância do conhecimento, da sabedoria. Foi dela que eu herdei minha paixão pela leitura e pela escrita. Lembro da estante abarrotada que ela tinha e que hoje está aqui em nossa casa. A diferença é que agora uma parte dela é cheia de livros meus. Lembro que sempre que não sabia alguma coisa, ela recorria ao "Pai dos Burros". Lembro de uma época em que ela resolveu escrever acrósticos para todos. O meu foi tão lindo, eu chorei. E lembro que ela sempre me fazia pesquisar várias coisas na internet, porque ela não tinha paciência com tecnologia. Ela até me pagava! Na verdade, acho que ela sabia tudo e só queria que eu soubesse também.
Depois disso, partimos para o cemitério com mais dois vasinhos de plantas, e no meio do caminho minha mãe achou uma BARATA em mim. É claro que eu comecei a fazer um escândalo fantástico e ela parou o carro pra jogar a barata fora. Eu me acalmei. Quando chegamos ao Campo da Esperança, parecia que alguém havia afugentado todo mundo: as pessoas corriam até a saída assim como mulheres correm para dentro de lojas em liquidação. Fiquei com medo. Minha mãe entrou com o carro e a chuva fez questão de começar justamente naquele momento. Ficamos procurando os túmulos feito loucas, tomando chuva.
Achei primeiro o túmulo da tia Mirela: a BFF de infância da minha mãe. Uma mulher perfeita, que tinha uma vida perfeita, e partiu jovem demais. Ela era maravilhosa. Ela era tão linda que nós costumávamos chamá-la de Barbie. Mesmo com a quimioterapia, que a fez usar peruca, e depois ficar com o cabelo curtinho, ela continuou lindíssima. Mesmo no seu velório. "Morte, que sugou o mel da tua respiração, não teve nenhum poder contra a tua beleza." Mas isso é superficial. O mais encantador nela é que ela era simples, mesmo tendo uma situação financeira confortabilíssima a vida toda - mamãe conta histórias de quando elas eram jovens e se bronzeavam com óleo Johnson & Johnson. E eu sou grata por tê-la conhecido e pela oportunidade de aprender um pouco com ela.
Quando a chuva começou mesmo a engrossar, mamãe achou o túmulo de vovó Cristina e nós ficamos um pouco lá. Eu não posso mencionar alguém que tenha me amado, superprotegido, defendido, mimado ou se preocupado mais comigo que ela. E ela não escondia isso, de forma alguma. Toda vez que ela ia nos visitar, me levava um presente. Por mais simples que fosse, ela sempre se lembrava de mim. E sempre fazia panquecas de banana com cobertura de chocolate e me levava no meio da tarde, quando eu estava babando no sofá. Ah, todas as delícias que ela fazia! Uma cozinheira de mão cheia, tenho que te contar. Se eu aprender a cozinhar metade daquelas receitas, ficarei extremamente satisfeita.
Uma coisa notável é que eu não chorei muito ou não chorei nada nos velórios delas. E não porque eu não as amasse muito. Só que eu sabia que foi um conforto para elas. Não deve ser fácil ver seu corpo se deteriorar numa cama de hospital, não importa a sua idade e nem o quanto você quer sobreviver. Eu só espero que eu possa realmente aplicar na minha vida as coisas incríveis que elas me ensinaram. Que se elas puderem me ver, eu possa orgulhá-las de alguma maneira. Que elas estejam bem, e saibam que para cada uma delas, há um pedaço em mim que é insubstituível.