Era uma vez uma garota. Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam. Um dia, um anjo bateu em sua porta e chamou-a para passear.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos; eles respiravam de antemão o ar que estava à frente. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque brilhava o brilho deles, a boca ficando seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. E ele foi embora, tão rápido como quando chegou.
Ela começara a adivinhar que ele a escolhera para ela sofrer. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceitava: como se quem queria fazê-la sofrer estivesse precisando danadamente que ela sofresse. Porque ela fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, ela amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque ela, só por ter tido carinho, pensou que amar é fácil. O amor é tão mais fatal do que ela havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto à própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.
"Eu te odeio", disse ela para ele, cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada, fazendo de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
E então, passou a vida tentando corrigir os erros que cometeu na sua ânsia de acertar. Ali estava ela, a menina esperta demais, e eis que tudo o que nela não prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que nela não prestava era o seu tesouro. Aliás – descobre ela agora - ela também não faz a menor falta, e até o que escreve, um outro escreveria.
Ela sente a falta dele, como se a faltasse um dente na frente: excruciante. Sente saudades de tudo que marcou sua vida. Quando vê retratos, quando sente cheiros, quando escuta uma voz, quando se lembra do passado, ela sente saudades... Sente saudades de quem a deixou e de quem ela deixou! De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem a conhecer direito, de quem nunca vai ter a oportunidade de conhecer. Sente saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências... E é por isso que ela tem mais saudades... Porque encontrou essa prova inequívoca de que é sensível! De que ama muito o que tem e lamenta as coisas boas que perdeu ao longo de sua existência.
Essa garota perdeu uma coisa que lhe era essencial, e que já não me é mais. Não lhe é necessária, assim como se ela tivesse perdido uma terceira perna que até então a impossibilitava de andar, mas que fazia dela um tripé estável. Essa terceira perna ela perdeu. E voltou a ser uma pessoa que nunca foi. Voltou a ter o que nunca teve: apenas as duas pernas. Sabe que somente com duas pernas é que pode caminhar. Mas a ausência inútil da terceira lhe faz falta e lhe assusta, era ela que fazia da garota uma coisa encontrável por ela mesma, e sem sequer precisar lhe procurar.
Começou então a sonhar com aquilo que ela quer, ir para onde ela quer ir, ser o que ela quer ser. Porque ela possui apenas uma vida e nela só tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenta a cada dia ter felicidade bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana, e esperança suficiente para fazê-la feliz.
Descobriu que as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram, para aqueles que se machucam, para aqueles que buscam e tentam sempre, e para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Percebeu que só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar, porque em pleno dia se morre.
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos; eles respiravam de antemão o ar que estava à frente. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque brilhava o brilho deles, a boca ficando seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos. E ele foi embora, tão rápido como quando chegou.
Ela começara a adivinhar que ele a escolhera para ela sofrer. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceitava: como se quem queria fazê-la sofrer estivesse precisando danadamente que ela sofresse. Porque ela fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, ela amava. Não sabia que, somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente. Porque ela, só por ter tido carinho, pensou que amar é fácil. O amor é tão mais fatal do que ela havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto à própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.
"Eu te odeio", disse ela para ele, cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada, fazendo de conta que ela não estava chorando por dentro - pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver. Como se ela não tivesse suportado sentir o que sentira, desviou subitamente o rosto e olhou uma árvore. Seu coração não bateu no peito, o coração batia oco entre o estômago e os intestinos.
E então, passou a vida tentando corrigir os erros que cometeu na sua ânsia de acertar. Ali estava ela, a menina esperta demais, e eis que tudo o que nela não prestava servia a Deus e aos homens. Tudo o que nela não prestava era o seu tesouro. Aliás – descobre ela agora - ela também não faz a menor falta, e até o que escreve, um outro escreveria.
Ela sente a falta dele, como se a faltasse um dente na frente: excruciante. Sente saudades de tudo que marcou sua vida. Quando vê retratos, quando sente cheiros, quando escuta uma voz, quando se lembra do passado, ela sente saudades... Sente saudades de quem a deixou e de quem ela deixou! De quem disse que viria e nem apareceu; de quem apareceu correndo, sem a conhecer direito, de quem nunca vai ter a oportunidade de conhecer. Sente saudades de coisas sérias, de coisas hilariantes, de casos, de experiências... E é por isso que ela tem mais saudades... Porque encontrou essa prova inequívoca de que é sensível! De que ama muito o que tem e lamenta as coisas boas que perdeu ao longo de sua existência.
Essa garota perdeu uma coisa que lhe era essencial, e que já não me é mais. Não lhe é necessária, assim como se ela tivesse perdido uma terceira perna que até então a impossibilitava de andar, mas que fazia dela um tripé estável. Essa terceira perna ela perdeu. E voltou a ser uma pessoa que nunca foi. Voltou a ter o que nunca teve: apenas as duas pernas. Sabe que somente com duas pernas é que pode caminhar. Mas a ausência inútil da terceira lhe faz falta e lhe assusta, era ela que fazia da garota uma coisa encontrável por ela mesma, e sem sequer precisar lhe procurar.
Começou então a sonhar com aquilo que ela quer, ir para onde ela quer ir, ser o que ela quer ser. Porque ela possui apenas uma vida e nela só tem uma chance de fazer aquilo que quer. Tenta a cada dia ter felicidade bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana, e esperança suficiente para fazê-la feliz.
Descobriu que as pessoas mais felizes não têm as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos. A felicidade aparece para aqueles que choram, para aqueles que se machucam, para aqueles que buscam e tentam sempre, e para aqueles que reconhecem a importância das pessoas que passam por suas vidas. O futuro mais brilhante é baseado num passado intensamente vivido.
Percebeu que só terá sucesso na vida quando perdoar os erros e as decepções do passado. A vida é curta, mas as emoções que podemos deixar duram uma eternidade. A vida não é de se brincar, porque em pleno dia se morre.
Adaptação de textos de Clarice Lispector.